Flexibilização do Ensino Médio?

Por Rafael Lima

O governo brasileiro encaminhou ao congresso nacional uma Medida Provisória reformando o ensino médio, o que tem causado muita discussão entre profissionais da área de educação. Essa reformulação propõe a flexibilização do ensino médio, mudança na forma de contratação dos professores e priorização do período integral.

Antes que sigam com a leitura, peço que leiam o texto inteiro antes de construírem uma opinião sobre o mesmo. Eu explicarei nesse texto porque esta proposta pode parecer boa e, talvez, você fique com raiva de mim por eu concordar com ela. Já deixo claro que não concordo, e ao final do texto explicarei porque apesar de a proposta parecer boa, na prática ela não é.

Eu acho que um Ensino Médio com um currículo mínimo básico e a possibilidade do aluno se aprofundar nas áreas de conhecimento que desejar junto com a implementação do período integral poderia ser algo verdadeiramente revolucionário. Você poderia ter as aulas do núcleo comum no turno e as aulas “flexibilizadas” no contra-turno. Esse currículo flexível poderia lidar com amplas áreas de conhecimento, além das que já são comumente trabalhadas pelo currículo escolar. O aluno poderia, por exemplo, ter aulas de marcenaria, meditação, jardinagem, eletrônica básica, eletricidade, economia, dança, teatro, música, desenho… as possibilidades são enormes.

Esse Ensino Médio poderia finalmente abrir mão das provas e das notas e utilizar um processo de avaliação processual, de forma que o foco ficasse no aprendizado, e não na aprovação através de uma avaliação objetiva.

Eu considero realmente que o currículo mínimo atual do Ensino Médio é, em sua maior parte, engessado e sem sentido. Eu não consigo compreender porque é mais importante para a formação do cidadão saber calcular a determinante de uma matriz 3×3 ou saber todas as relações trigonométricas do que saber como funcionam os impostos ou conseguir consertar as instalações elétricas da sua própria casa.

A parte flexível do currículo poderia ainda contar com a possibilidade, sim, de uma profissionalização ou formação técnica. O aluno poderia escolher disciplinas específicas que lhe dariam uma formação técnica, o que é muito importante para quem não vai poder se dar ao luxo de seguir os estudos fazendo uma graduação sem ter que trabalhar.

Esse Ensino Médio não deveria excluir disciplinas, mas sim ampliar o leque de conhecimentos e habilidades que o aluno pode desenvolver, e focar realmente na aprendizagem significativa, priorizando-a em relação a habilidade de resolver provas.

Nas áreas de conhecimento que fizessem parte do currículo flexível, os professores poderiam ter formações diversas e, não necessariamente, terem licenciaturas em suas áreas (já que, na maioria desses casos, nem existem licenciaturas). O importante seria o professor ter comprovado conhecimento na área que lecionará e as instituições de ensino ficariam a cargo de fazer a qualificação pedagógica desses profissionais, de forma a que se adéquem a seus PPP.

Eu realmente acredito que um projeto de Ensino Médio assim poderia ser verdadeiramente revolucionário, gerando cidadãos críticos, preparados para o mundo do trabalho, de forma que consigam transformar o seu meio imediato para construir a sociedade em que verdadeiramente desejam viver.

E tudo isso que eu disse até aqui pode parecer estar na mesma via que a MP do governo propõe. Mas não é bem assim que a banda toca.

Pra início de conversa, a gente precisa lembrar que o Ensino Médio é responsabilidade dos Estados. E lembrando disso, a gente precisa lembrar do recente movimento de ocupação das escolas estaduais, que teve muita força no RJ e em SP, mas que aconteceu em outros estados também. Falando de Rio de Janeiro, onde vivo, as escolas estaduais hoje não conseguem dar conta do atual currículo mínimo do Ensino Médio. Os estudantes ocuparam as escolas não foi à toa, nós temos sérios problemas nesse ponto. Como se espera que o estado crie, de uma hora pra outra, escolas com ensino integral e um currículo mais amplo? Na verdade, não se espera, porque não é isso que acontecerá.

O que acontecerá é que as escolas para as camadas mais pobres diminuíram o currículo mínimo e oferecerão quase nada na “parte flexibilizada” do currículo. A ideia aqui não é permitir uma possibilidade de educação mais ampla às pessoas, mas sim diminuir o que precisa ser obrigatoriamente oferecido, de forma a diminuir os custos das escolas. Eu fico imaginando, pegando uma escola aleatória, o CIEP Nação Mangueirense (que possui Ensino Médio) oferecendo na parte flexibilizada do currículo apenas “Capoeira”, “Futebol de Salão” e “Samba”. Porque na cabeça de quem organiza nossa educação, é apenas disso que os moradores da Mangueira precisariam. Eles aprendem um mínimo para poder funcionar dentro das fábricas e das empresas, e de resto a gente os coloca pra lutar uma capoeira ou jogar um futebolzinho e ficarem felizes.

Está claro que a proposta atual pretende apenas intensificar a separação da “escola para ricos” e “escola para pobres”. Aos pobres, que aprendam um ofício cedo para que possam trabalhar e exercer sua função de “carregadores de piano” dentro da sociedade, sem que questionem como que isso se organiza. A intelectualidade da academia ficará apenas para aqueles que estão nas classes mais altas. Você que reclamava do filho da empregada estudando junto contigo na universidade, poderá novamente ficar tranquilo, pois terá apenas pessoas da sua classe econômica dentro da sua sala de aula na universidade novamente. Ou alguém acha que o ENEM e os Vestibulares também serão “flexibilizados”?

Se não houver mudança na forma de acesso ao ensino superior, essa “flexibilização” dificultará que os mais pobres cheguem às universidades. Porque se não houver essa mudança, alguém acha que o currículo mínimo das escolas particulares, caras, mudará? Eu continuo não entendendo a importância de se aprender a calcular a determinante da matriz 3×3 mas, se essa inutilidade continuar a ser cobrada numa questão de vestibular, porque alguns poderão saber responder e outros não? Os que estudam em escolas públicas terão um conteúdo menor e ainda menos chances de concorrer nas vagas dos estupidamente injustos vestibulares.

Que a maior parte da população então não questione mais nada, que trabalhe até aos 65 anos de idade, que o façam 12 horas por dia, e que não tenham acesso ao conhecimento que a possibilite questionar isso. E que quem saia beneficiado com isso sejam os caras que terão acesso à educação de maior nível, para que possam continuar controlando a sociedade e mantendo os mais pobres em seus cabrestos.

Em relação a flexibilização da contratação dos professores, que não mais precisarão ter licenciaturas e poderão ser pessoas com “notório saber” das áreas ensinadas, isso abrirá possibilidades: economizar dinheiro colocando professores para lecionar mais de uma disciplina (algo que já vem sendo feito e, com essa MP, vai ser escancarado. Isto é uma precarização monstruosa da educação) e, como era feito na época da Ditadura Militar, possibilitar que militares lecionem disciplinas de qualquer coisa. Esse segundo ponto está sendo, num geral, pouco discutido. Mas se estamos voltando ao tempo em que se fortalece que “Pobre tem que estudar apenas para trabalhar” (algo que foi fortemente presente na época da Ditadura), não me surpreenderia que também voltemos a ter militares ensinando sobre disciplina, moral, civismo, etc nas escolas. Nosso país não para de retroceder, e esse seria mais um retrocesso que interessa às camadas de elite brasileiras nesse projeto de “controlar o gado”.

Para finalizar, o MEC informou que a MP enviada a princípio estava errada, que não haverá extinção de Sociologia, Filosofia e Educação Física do currículo mínimo, que não haverá extinção de nenhuma disciplina, as 13 disciplinas obrigatórias hoje no Ensino Médio continuaram sendo obrigatórias (Apenas seu currículo mínimo será diminuído). Não se enganem com a estratégia desse governo ilegítimo, de informar algo absurdo para depois voltar atrás e conseguir a aprovação de algo “menos ruim” mas ainda péssimo para nós. Eles também falaram que a aposentadoria seria com 70 anos para depois diminuírem para 65. Eles falaram em aumento de jornada de trabalho para 80 horas semanais para depois proporem apenas “possibilidade de 12 horas diárias”. Essa estratégia é antiga e precisamos ficar espertos para não cair nessa. Não confiem que um governo golpista, que tentou nos fazer engolir um slogan de “Esqueça da crise, Trabalhe” tenha algum interesse em criar uma educação que faça as pessoas pensarem e relacionarem as coisas. Quanto mais ignorantes ficamos, mais trabalhamos para eles sem questionar o que estamos fazendo com nossas vidas.

A escola é dos alunos.

Por Rafael Lima

Eu sempre achei absurdo que nas escolas tivesse banheiro separado para professores. E sempre ouvi “É determinação do MEC”

Fui ler agora os parâmetros de infra-estrutura das instituições de ensino, documento oficial do MEC.

Para educação infantil deve ser prever um banheiro de uso exclusivo para adultos. E nesse caso eu até compreendo, porque como a criança muitas vezes ainda precisa da ajuda do adulto para ir ao banheiro, vale para o professor mais sem noção. (Note que fala em banheiro exclusivo para adultos, mas não exclusivo para crianças)

Ensino fundamental e ensino médio não fala nada sobre isso.

Fala sobre autonomia da criança no uso do banheiro e adaptação dos equipamentos, recomendação de qual tipo usar, localização do banheiro, proporção de vasos sanitários/alunos, acessibilidade.

Mas nada sobre “Os professores devem ter um banheiro separado dos alunos”

Cara, o dia que o pessoal de escola perceber o PODER que tem o aluno entender que a escola é DELE , só isso, a qualidade da educação vai ter um disparo gigantesco.

Só que pra entender, tem que ser dele. E não é. Por isso a escola é uma bosta e ninguém quer ir. Porque a escola não é do aluno.
Não pode ter lugar “proibido” para o aluno. Você pode ter um espaço em que você pode “pedir licença” ao aluno para fazer uma reunião que necessite de privacidade.

Você pode ter locais trancados na escola se for necessário por questão de segurança, se os locais tiverem equipamentos como computadores e tal, mas dê a chave para os seus alunos quando eles quiserem/precisarem ir nos locais.

Deixem que eles organizem a festa junina da escola.

Deixem que se responsabilizem pela limpeza da escola. Você pode ter profissionais de limpeza na escola, não precisa jogar tudo nas costas deles, mas não tem problemas eles fazerem juntos de vez em quando (e SEMPRE quando a sujeira for consequência de uma ação direta deles)

Não crie regras sem discutir com eles as regras. Crie-as junto com eles.

Não proíba seu aluno de entrar na escola em nenhuma hipótese durante o seu horário de funcionamento.

Eu repito o que disse anteriormente… quando os educadores descobrirem o PODER que existe em dar a escola para os alunos, a vontade dos alunos estarem na escola irá disparar. E eu não tô falando isso de achismo, tô falando de experiência.

.

Exatas não são difíceis

Por Rafael Lima

As disciplinas de exatas não são difíceis, o ensino delas é que, num geral, é horrendo.

Eu fiquei a maior parte da minha vida na área de exatas, depois fui fazer uma graduação na área de humanas. Eu lembro ainda no primeiro período de Pedagogia, fazendo uma prova a professora me pergunta se eu fui bem, e eu falo “Eu não sei, acho que sim… eu não sei onde eu paro de escrever nessas provas”

Quando eu fazia uma prova de exatas, eu sabia que, por exemplo, dava pra simplificar um polinômio e até onde dava pra ir. As vezes eu até pensava “Eu sei que dá pra simplificar mais que isso, mas não sei como fazer”. As exatas tem esse nome em parte porque as coisas estão “certas” ou “erradas”, não costuma ter meio termo e se você entende a parada, o mistério acabou.

Na área de humanas não é bem assim, as coisas dependem de contexto, de interpretação, de relações, de visão de mundo, de ideologia… é muito mais complicado.

O lance é que quando a gente tá estudando, sei lá, História, Sociologia ou Antropologia, você normalmente consegue relacionar as coisas que você tá lendo e ouvindo com vivências e observações reais da tua vida. Eu sempre digo que as coisas que eu aproveitei fazendo faculdade de Pedagogia eram aproveitadas porque eu já era professor e já conseguia ver a relação do que era dito com o que eu vivia dentro da minha sala de aula.

As exatas são ensinadas como se existissem com fim nelas mesmas. Você até aprende a “Eu tinha três balas, ganhei mais cinco, com quantas fiquei?” ou “Eu tinha 10 maçãs, comi 3, com quantas fiquei?”… mas depois disso vira um monte de número (“e letra”) que não representam nada nossa vida.. parece que aquilo existe só dentro daquele universo e mais nada, que você “aprende” pra fazer prova e depois esquecer. E ai é óbvio que ninguém aprende, ai depois os professores nas universidades (onde parte daquele conhecimento vai ser utilizado) reclamam que o ensino de Matemática e Física nas escolas é ruim… (Essa reclamação parte de professores que também ensinam de forma similar aos da escola).

Por que a gente não pega a Televisão que a mãe do menino comprou na Casas Bahia parcelada em 16 vezes, trás os carnês pra escola e vê a progressão na função parcelas/valor final caso ela diminua ou aumente o valor das parcelas? Vai brincar de função, de juros compostos e vai falar do orçamento familiar.

Por que a gente não pinta a parede da escola e calcula a quantidade de tinta a ser utilizada de acordo com a área da parede?

Por que a gente não aprende as relações trigonométricas jogando sinuca?

Por que depois que a gente aprende os conceitos matemáticos, a gente não aprende a ensinar o computador a fazer as contas para a gente? (Porque a gente nem aprende os conceitos matemáticos de verdade, quem dirá aprender a programar)

Por que não se usa simuladores e experiências em laboratórios para demonstrar a física?

Nas áreas de exatas, num geral, tudo é lógico e se encaixa. Não tem “exceção da regra”, não tem contexto variável. Se a parada encaixa aqui, vai encaixar ali. É muito mais simples. O problema é que tudo é ensinado como se fossem verdadeiros enigmas egípcios que existem apenas para ferrar com a tua cabeça e, ao invés dos professores nos fazer concentrar em compreender os conceitos, eles apenas nos colocam para fazer conta e fazer conta e fazer conta e fazer conta, um monte de conta que não representa nada de lugar nenhum e que não serve para nada além de garantir a sua nota.

Antigamente era tudo bem diferente.

Por Joaquim Tavares Jr.

Antigamente era tudo bem diferente.

Hoje eu escrevo algo online e, um minuto depois, o texto se torna público e acerta milhões ou bilhões. Antigamente escrever nem sempre era permitido, divulgar o que se criava também não era fácil. Muitos artistas somente conseguiam ter suas obras reconhecidas e valorizadas após as suas mortes.

Hoje a fluidez dos assuntos é avassaladora! Faltam adjetivos para descrevê-la. Nesse último mês de Maio, por exemplo, tivemos o racismo, a crise política, a homofobia, o estupro, e alguns outros temas muito importantes, sendo debatidos a nível nacional. Antigamente tudo isso já existia, claro! No entanto, a forma com a qual se alastrava esses assuntos era infinitamente mais lenta, e o alcance do debate era menor. Resumindo: uma capa de jornal, hoje, se torna ultrapassada em questão de dias, ou mesmo no próprio dia. E você pode até não saber exatamente como se posicionar perante um assunto, mas ouviu alguma coisa sobre ele.

Hoje tudo é planejado para o agora. Posso viajar amanhã mesmo para a Bulgária, sem mesmo saber o que há para fazer por lá, ou como estaria o clima. Mas isso eu posso resolver durante o próprio percurso, pesquisando online em sites especializados ou fóruns de viagens, ou até no Facebook. Nem sei ao certo como deveria ser viajar antigamente. Tem noção? Ir para um lugar sem saber quase nada sobre ele. Viver do “boca-a-boca”, saber apenas das opiniões daqueles que eu conheço e já visitaram o local. Que estranho! Soa arcaico também, né?

Hoje a informação é um trem, enquanto antigamente era um cavalo. A formação segue o mesmo caminho. Antes percorria-se uma longa estrada para chegarmos ao conhecimento de algo; hoje podemos facilmente achar atalhos – não necessariamente tão precisos. A preguiça é um mal que combina muito com a modernidade. Para que ler um livro todo se eu posso achar um resumo dele com opiniões na internet?

A questão aqui não é aprovar ou desaprovar como funciona o hoje, mas, sobretudo, entendê-lo em virtude do ontem. Se algo não é feito ou vivido como se fazia ou vivia, sinal de que significativamente mudou. A mudança é natural. A evolução depende da mudança. A mudança nem sempre é evolução.

Sobre mudança, evolução (ou não), e o passar dos tempos, pensemos a escola. A de hoje. A de antigamente. Evoluímos? Retrocedemos? Mudamos?

Façamos o seguinte: diga-me se o que estou prestes a descrever é o hoje ou o antigamente da escola. Lá vai!

Esse escola é cheia de salas de aula, filas ordenadas de cadeiras e mesas, horários demarcados por sinais, professores e alunos, provas e testes, deveres (cadê os direitos?), castigos, meritocracia, notas conceituais, reprovação.

Nesses tempos líquidos e modernos, a solidez escolar não se apresenta numa base firme, que busca e segue os avanços sociais, mas sim num dogmatismo quase religioso, onde o novo e o velho não diferem.

Aquilo que não muda está morto.

Game Design para suas aulas

Por Rafael Lima

Usando Game Design pra planejar suas aulas:

Num game de puzzles, em que o jogador precisa pensar para achar uma solução, é importante que a progressão das fases não seja linear. Dê sempre a opção do jogador ter mais de uma fase (quebra-cabeça) para tentar resolver ao mesmo tempo.. assim quando ele não consegue achar a solução de um, ele pode tentar outro, e que seja possível ele “vencer” o jogo mesmo sem resolver todos os quebra-cabeças.

Se você forçá-lo a ter que resolver uma fase específica para ver o resto do jogo, ele pode ficar frustrado por não conseguir solucionar o quebra-cabeças e nunca mais voltar pro seu jogo – e enquanto é possível vencer o jogo sem resolver todos os quebra-cabeças, o desafio de bater todos fica como “prêmio maior”, gerando um estímulo maior de continuar a jogar.

Quando fizer uma lista de exercícios que seu aluno preciso pensar para resolver, é importante que os conteúdos não sejam tratados de forma linear dentro da lista, e que ele tenha liberdade de escolher fazê-los na ordem que quiser, inclusive escolher deixar de fazer um o outro caso queira – mas depois, quando se sentir mais confortável ou motivado, voltar a tentar resolvê-los como um desafio pessoal.

Se você força-lo a fazer todos , e de forma linear, talvez ele fique frustrado com um deles e acabe desistindo da sua disciplina.

E a propósito, se sua lista de exercícios não precisa fazê-lo pensar, mas apenas repetir informações dadas anteriormente, ela não tem razão de existir.

A escola acaba com os alunos (Talvez parte 1?)

Por Rafael Lima

Eu sempre tive alunos (Lembrem que dou aula, na maior parte do tempo, para ensino médio) que achavam que não era aula se eu não escrevia algo no quadro, ou se eles não escreviam algo no computador (ou no caderno).

Alunos que foram condicionados a apenas copiar. Copia do quadro, descora, responde na prova, consegue a nota, passa de ano. Esse é o objetivo da escola para esses alunos (que, na verdade, são em grande número) – decorar coisas e ultrapassar os obstáculos PROFESSOR e PROVA para conseguir um documento que o permita “ser alguém na vida”

Esses alunos normalmente não costumam pensar sobre nada que está acontecendo na aula – vejo normalmente a mente deles estar longe quando se está discutindo sobre qualquer coisa, o que importa é apenas o necessário para ser decorado e respondido na prova. Às vezes eles não conseguem fazer um exercício e, quando dou uma explicação detalhada sobre a resolução do exercício, eles não prestam atenção em nada, o olhar deles está nitidamente me dizendo “Ok, pula isso e vai logo pra parte que eu preciso colocar aqui para ficar certo e pronto”.

A escola é quem gera isso. A escola consegue o feito de matar a capacidade de pensar, fazer relações, criar e imaginar das pessoas. A escola não quer que você faça nada disso… no discurso pode até ser que sim, mas na prática a escola pede apenas que você decore uns fatos, memorize umas fórmulas, saiba repeti-las no papel e pronto. VOCÊ ESTÁ PRONTO PARA SER ALGUÉM NA VIDA.

Eu sendo professor de programação fico desesperado com isso. Eu preciso que meus alunos tenham capacidade de abstração e que consigam usar a criatividade e a imaginação para criar diferentes soluções para diferentes problemas. Mas a única coisa que eles conseguem fazer é decorar soluções prontas para problemas prontos e repeti-los.

E isso gera adultos que não conseguem pensar, não conseguem relacionar fatos e criar um ponto de vista a partir de dados e relatos diferentes (Não, eles só repetem o que ouvem na televisão, ou talvez a partir de um líder religioso – é a mesma mecânica da escola, eu ouço o que alguém diz e repito). Não conseguem pensar fora do paradigma e não conseguem solucionar novos problemas que surgem no trabalho e na vida.

A gente tenta desconstruir isso na sala de aula. Quando você tem tempo e colegas fazendo isso, é possível. Mas quando a escola inteira continua repetindo o esquema de “Decora-> responde na prova” e você ainda tem pouco tempo com os alunos, fica quase impossível. A escola basicamente ferra com a possibilidade de eu fazer meu trabalho direito. Por favor, professores do ensino fundamental, PAREM DE DAR PROVAS, PAREM DE FAZER SEUS ALUNOS DECORAREM COISAS, façam seus alunos PRODUZIREM, PENSAREM, CRIAREM, RELACIONAREM, deixem a mente de seus alunos LIVRES, parem de querer formatar a cabeça deles, parem de querer que eles decorem TROLHÕES de informações sobre suas disciplinas.

Eu agradecerei muito quando for minha vez de assumir a educação deles. E a sociedade vai agradecer mais ainda.

Coisa de menina

Por Rafael Lima

Hoje eu tinha terminado a aula com meus alunos do terceiro ano do ensino médio, estávamos descendo a rampa da escola, e cruzamos com uma turma do ensino infantil (ou talvez primeiro ano do fundamental, não sei com certeza) também descendo.

Um dos meus alunos falou para mim:”Olha as mochilas das crianças, todas são de personagens de desenho”

“Repara só, todas as mochilas das meninas são de princesas”

“Pois é, e repara como os meninos tem mochila das Tartarugas Ninjas, dos Transformers, do Carros, do Homem-Aranha. Os meninos podem ser várias coisas, as meninas só podem ser princesas”

“Repara com as mochilas dos meninos tem várias cores. As mochilas das meninas são todas rosas”

“E as princesas, são todas branquinhas e loirinhas”

Eu sei que já tem bastante gente discutindo isso, mas é assustador quando a gente vê assim, de repente, na nossa cara. E que bom que tem garoto no ensino médio se dando conta disso.